Mulheres e Meio Ambiente




Fonte: Herlinde Demaerel / China Dialogue


Rachel Hidalgo


O campo da Educação Ambiental (EA), historicamente, nos convida a questionar os padrões societários que, sem dúvida, nos conduziram à degradação. O questionamento desses padrões envolve reconhecer como o sexismo, o racismo e o epistemicídio contribuem para intensificar a vulnerabilidade de alguns grupos sociais frente aos impactos ambientais. Dentre esses grupos, podemos destacar as mulheres dada a sua potência educativa e também os desafios vivenciados em uma sociedade machista.


O caráter dualista e excludente da modernidade passou a operar nas diferentes dimensões materiais e subjetivas da existência humana, excluindo as multiplicidades e as diferenças, impondo a inferiorização e o silenciamento de todos os conhecimentos vindos de seres humanos não ocidentais e garantiu ao homem ocidental (branco, heterossexual, capitalista e cristão), seu lugar como centro da produção de conhecimento e único capaz de alcançar a consciência universal. Tal entendimento, inclusive, foi corroborado durante muito tempo pelas diversas áreas da Ciência.


Nesse modelo civilizatório, a educação é um forte instrumento de dominação, que reafirma a visão do colonizador: uma postura ativa de dominação do/a outro/a, considerado/a objeto a ser catequizado, escravizado, ou ainda impulsionado em direção ao progresso. E nesse sentido, a EA também se constitui um processo de dominação, uma vez que foi concebida para conter os problemas ambientais criados pelo ocidente, por meio de imposição de valores, de interesses, de princípios e atitudes.


No Brasil, a maioria das pesquisas no campo da EA é desenvolvida por mulheres, e estas também se destacam, quantitativamente, em relação à docência e a responsabilidade em educar a família. Entretanto essa realidade muda quando analisamos autores/as mais citados/as nas produções acadêmicas.


A nossa atuação como mulheres e educadoras ambientais, em diferentes espaços de interlocução, tem revelado o quanto o silenciamento e/ou subjugação das questões de gênero tem comprometido o potencial democrático e transformador. A injustiça climática, o racismo ambiental e o ecocídio ratificam como os impactos da degradação atingem de modo desigual, esses mesmos grupos socialmente vulnerabilizados. Soma-se ainda, o silenciamento e a diversidade epistêmica, explícita ou não nos processos de EA.


O compromisso com a equidade de gênero como uma das condições para o alcance da sustentabilidade está expresso em normativas e acordos internacionais no qual o Brasil é signatário. A Resolução do Conselho Nacional de Educação nº 02/2012 ao tratar dos objetivos da EA e a sua inserção nas instituições educativas estabelece a pluralidade e equidade de gênero como necessárias a concepção e desenvolvimento da EA. Na Agenda 2030, o reconhecimento das vulnerabilidades impostas às mulheres e a necessidade de superação desses problemas compõe um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, o ODS 5 - Igualmente de Gênero além de metas em outros ODS a exemplo do ODS 4 - Educação Equitativa e de Qualidade.



No Brasil, as mulheres são principais responsáveis pela educação dentro e fora das instituições educativas. Conforme Inep (2019) na Educação Básica, por exemplo, elas compõem 81% das docentes atuantes, na graduação correspondem a maioria do corpo discente e, no campo da EA se destacam como autoras em cerca de 70% de trabalhos publicados independente do nível de titulação.


Desvelar, questionar e compreender essa estrutura é fundamental para consecução da EA comprometida com as transformações sociais, pois não é possível pensar em um projeto de sociedade democrático e justo, se não reconhecemos a pluralidade de conhecimentos e as múltiplas diferenças.


Esse assunto ainda vai bem longe e vamos continuar abordando esse tema durante todo o mês de março. O texto acima foi baseado no artigo publicado durante o VII Simpósio Internacional, Desigualdades, Direito e Política Públicas, promovido pela Universidade do Vale dos Sinos - UNISINOS, de autoria das pesquisadoras Rachel Hidalgo, Ana Lúcia Ruiz Goulart e Rita Silvana Santana dos Santos.

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