Sartasiñani: luta por mudanças nas relações de poder



Quem nos acompanha aqui no blog e nas redes sociais já está sabendo que o Coletivo Sartasiñani vai lançar a sua primeira coleção no próximo dia 20 de outubro: evento imperdível para quem valoriza obras de altíssima qualidade e ainda tem a possibilidade de colaborar com a força de trabalho dessas mulheres imigrantes que se reuniram para remar contra a maré!


Antes de continuar aqui o bate papo que tivemos com o coordenador desse projeto, Sergio Miletto, vale adiantar que o primeiro lançamento da marca Sartasiñani é aberto ao público e vai acontecer na FAAP, no dia 20, as 18 horas. Porém, quem quiser fazer parte dessa celebração e conhecer as artistas, assim como os/as outros/as profissionais que participaram da criação das peças e da formação do coletivo, precisa se inscrever via formulário por conta de necessária limitação do número de pessoas.

A primeira coleção que é o motivo da festa chama "LATINOSSOMOS" e aposta na diversidade de um público que gosta de cores e formas vibrantes, versáteis e que expressem sentido. A inspiração vem da ancestralidade das próprias artistas, o grupo de costureiras que são do povo Aymara, naturais da Bolívia - uma nação Inca que ocupa toda a America Latina - e toda uma equipe de interessados/as em imprimir muita qualidade e bom gosto em cada etapa do processo de trabalho. Se você não leu a matéria anterior sobre a criação do Coletivo Sartasiñani, clique aqui: Sartasiñani - moda sustentável tem lançamento no próximo dia 20








Beleza, qualidade e história

A estampa, sem dúvida, é o chamariz da coleção! Sua criação surge a partir do sentimento mútuo pela Latinoamerica e trata-se da justaposição da frase: "latinos somos", repetidas vezes. A ideia emergiu do diálogo entre estudantes da escola Ewa Poranga e as costureiras do Coletivo Sartasiñani, a partir de suas crenças, valores e, acima de tudo, sua força!



Grande parte da coleção é feita com tecido orgânico, como os produzidos por meio de reciclagem de garrafas PET. Entretanto, outros modelos estão, também, de alguma forma, na mesma direção, mas não em sua totalidade para que pudessem ser mais acessíveis em relação a sua precificação.


Essa questão é algo que chama bastante a atenção de todos/as os/as envolvidos/as com o projeto, uma vez que a ideia principal sempre foi fazer com que o coletivo de mulheres pudesse produzir a sua própria arte e ser bem remunerado pelo belo trabalho que realizam. Porém, não podemos ignorar que, moda sustentável não é algo acessível para todos os públicos, mas por que isso acontece?


Sergio Miletto, coordenador do projeto e produtor sociocultural, explica que nós ainda vivemos em um país com uma população extremamente empobrecida, em que o grupo de mais baixa renda foi expropriado: "Não sou eu quem digo, são os dados do DIEESE que mostram que o salário mínimo, criado em 1946 para atender a lei, hoje, corrigido, deveria ser de 6 mil reais, o que equivale, mais ou menos, a média do salário mínimo europeu". Dessa forma, com um salário mínimo brasileiro muito menor, fica mais difícil para uma família, de quatro ou cinco pessoas, ter uma renda que possibilite educação, saúde de qualidade, gratuita, preços razoáveis para moradia e ainda sobrar algum dinheiro para o lazer ou para comprar roupas!


Ainda mais quando estamos falando de uma qualidade superior - compreende-se um produto que não é somente mais bonito, ou simplesmente mais caro, mas que sua confecção visou a preservação do meio ambiente. E é por isso que a moda sustentável está, ainda, longe de se tornar uma opção para todas as pessoas.


Miletto aponta para a questão das compras públicas que marcou a trajetória do Coletivo Sartasiñani ( ver matéria anterior) e poderia mudar, a longo prazo, um pouco da relação que temos com produtos de melhor qualidade, eficientes para colaborar com a vida na Terra: "Os editais poderiam exigir que o tecido fosse sustentável e isso ser algo padronizado. Quando falamos em compras públicas, não estamos falando somente de Governo, mas todo mundo que recebe dinheiro do governo, por exemplo, se uma entidade recebe dinheiro do governo, ela deveria ter, no minimo, 25% dessas compras a serem feitas com o dinheiro recebido por micro e pequenas empresas. Bom, imagina que todas as compras, de todos os editais, exigissem alimentação orgânica para as escolas, produtos orgânicos para a produção de uniformes, acabamentos, tudo que pudesse ser de tecido mais sustentável e por pequenas empresas... quando você tem essa demanda, tem toda uma cadeia de valor para produzir isso".


Sergio Miletto está a frente do projeto econômico das costureiras porque atua pela Alampyme Brasil, uma reunião de entidades com o objetivo de abrir o diálogo entre os partidos progressistas da América Latina e os empresários para buscar uma nova governança mais inclusiva. "Inclusive, por uma questão de inteligência", explica ele, "A América Latina tem por volta de 650 milhões de pessoas, mas são pessoas que estão fora do mercado, pessoas exploradas. A China, por exemplo, o seu maior capital é a sua população, todos querem ter um bom negócio com a China por causa do mercado chinês que é enorme. E, aqui, a gente, ao trabalhar e ter optado por ser uma plataforma exportadora de commodities, tem uma população extremamente miserável para que o custo dessa commodities seja baixa e para que possa competir no mercado internacional. E é complexo isso, mas é nesse contexto que nasce a Alampyme Brasil.


Então, trata-se de muito mais do que somente hábitos ruins que temos na hora de escolher um produto para levar para a casa. O que precisamos mudar é a relação de poder de todo esse processo: "O Brasil é o quarto maior produtor de algodão. No lugar de fazer com que ele vire tecido aqui no país, nós mandamos para China e ele volta produzido, transformado. Será que esse é o modo mais sustentável de trabalhar isso? O Brasil e a América Latina têm recursos naturais não renováveis, saem como commodities. Vão para a China, para os Estados Unidos e para a Europa para voltar como produtos manufaturados, será que isso é sustentável? Bom, mudar tudo isso nos faz mudar toda uma relação de poder, é uma guerra muito grande e nós estamos nessa luta!".


Quando perguntamos sobre a preservação do planeta, Miletto corrige: "o planeta sobrevive as pessoas. O que está sendo ameaçado é a própria humanidade! Se a gente quer preservar ou construir um futuro melhor para os nossos descendentes, nós temos que mudar os nossos hábitos. Dá pra mudar? Dá! Mas isso tem a ver com política, tem a ver com a luta pelo poder".


Segundo ele, precisamos olhar para a relação capital x renda. "Hoje, o capital é quase sete vezes maior que a renda mundial. Estou falando de mundo, não somente de Brasil. Para Piketty, por exemplo, isso só foi assim na Idade Média! No fim da segunda grande guerra, nossa relação era de um para um, por isso eu falo em expropriação. Onde foi parar o recurso gerado, a riqueza gerada pelos trabalhadores e os mais pobres? Nos bancos. Então, para fazer qualquer mudança tem uma luta política que é grande, luta de gerações."


Quando Miletto fala em Thomas Piketty, ele está sugerindo o livro "O Capital no Século XXI", em que o pesquisador trata das desigualdades econômicas. E para quem prefere ver, do que ler, tem ainda o documentário de Justin Pemberton & Thomas Piketty para assistir e entender melhor quais são as questões envolvidas nesse assunto e que tornam, como uma das consequências, a moda sustentável, ainda, como algo distante de todos os públicos.



E essa é a relação que interessa as mulheres do Coletivo Sartasiñani mudar. Quando elas vão atrás de uma produção preocupada com o nosso meio e, superam, primeiro as condições adversas da imigração e da sobrevivência em um território diferente e, depois, da exploração de empresários e outros; e desenvolvem uma marca que tem como identidade a preservação de sua cultura e afirmações políticas.


Todo esse processo está na estampa e nas roupas que serão apresentadas ao público no próximo dia 20 de outubro! E todos/as estão convidados/as a conhecer a primeira coleção do grupo.




Serviço:


Quando: 20/10, 18h

Onde: B HUB da FAAP - Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo-SP

Inscrição via formulário


* Imagens e texto sobre a logomarca foram reproduzidos pelo lookbook do coletivo.

 

Rachel Hidalgo


Jornalista, produtora audiovisual e educadora ambiental, colaboradora do Instituto Ecoar.

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